Cultura e extensão como tradução da Universidade para a sociedade

O novo pró-reitor, Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira, defende a valorização da extensão na carreira universitária, a comunicação como política institucional e a cultura como principal porta de entrada da USP para a sociedade

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ao assumir a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU), Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira parte de um diagnóstico claro: a política de cultura da Universidade não pode se limitar à manutenção de seus equipamentos culturais. Embora órgãos como museus, centros culturais e programas artísticos sejam referências consolidadas, o papel da Pró-Reitoria vai além da preservação de estruturas. Trata-se, segundo ele, de um trabalho de curadoria, comunicação e tradução do conhecimento produzido pela Universidade para a sociedade.

“A universidade se expressa fundamentalmente pelas pesquisas que realiza. E a extensão é, no fundo, a tradução do que a gente faz em pesquisa, ensino e formação. Não dá para dissociar essas dimensões”, afirma. Para o pró-reitor, a cultura é uma linguagem estratégica nesse processo, justamente por sua capacidade de tornar acessível um conhecimento que, muitas vezes, é produzido de forma altamente especializada. “A extroversão da cultura passa por uma política clara de como externalizar para a sociedade o conhecimento que é gerado aqui dentro”.

Um dos eixos centrais da gestão é enfrentar um problema histórico: a baixa valorização das atividades de extensão na carreira acadêmica e funcional. Para Oliveira, apesar dos avanços recentes, a USP ainda engatinha nesse campo. “As últimas gestões fizeram um esforço importante para valorizar a extensão, envolvendo estudantes, docentes e servidores técnico-administrativos, mas isso ainda está longe do patamar da pesquisa”.

“A USP faz muita extensão, com muito impacto e muita qualidade. O problema é que nós mesmos não sabemos tudo o que é realizado. Então, a dificuldade central está na metrificação”, avalia. “Enquanto a pesquisa dispõe de indicadores consolidados, como número de publicações, fator de impacto e citações, a cultura e a extensão lidam com resultados mais complexos de mensurar. Como você mensura um artista internacional ou o impacto de um projeto cultural? Como compara isso com um paper científico?”.

O pró-reitor chama atenção para situações em que projetos de extensão produzem efeitos profundos, especialmente na formulação de políticas públicas, mas recebem pouco reconhecimento institucional. “Você pode impactar uma população inteira, mas isso acaba não pesando da mesma forma na carreira. Enfrentar esse desafio é essencial, pois sem extensão, a pesquisa fica guardada na Universidade”.

Fortalecer tanto o interior como o internacional

Outro ponto central da gestão é o fortalecimento da relação com os campi do interior. Para o pró-reitor, eles representam uma potência extraordinária em cultura e extensão, ainda que muitas de suas estruturas não estejam formalmente vinculadas à administração da Pró-Reitoria. “Todos os campi do interior têm órgãos de extensão muito robustos. Não se trata de criar vínculos administrativos, o que nem faria sentido, mas de integrar políticas, dialogar mais e dar visibilidade”.

A comunicação é um assunto que aparece nos planos da nova administração como eixo transversal da política de cultura e extensão. Para o pró-reitor, não se trata apenas de divulgação, mas de construir experiências de aproximação. Nesse sentido, a atuação da PRCEU deve caminhar em sinergia com outras estruturas da Universidade, como o Escritório Ciência e Sociedade, em fase de implantação: “O Escritório terá uma dimensão muito voltada a trazer atores-chave da sociedade para dentro da Universidade. A proposta é complementar os meios tradicionais de comunicação com ações que permitam o contato direto das pessoas com a USP. Uma coisa é ler sobre a Universidade; outra é estar aqui dentro. A experiência in loco muda completamente a percepção. Trazer pessoas para conhecer o que fazemos transforma até a visão de quem chega com preconceitos”.

Para Oliveira, a USP é uma potência internacional ainda pouco explorada. “A gente precisa valorizar nossa relevância. É importante ter presença local, mas também ter ambição internacional”. Ele cita sua experiência como vice-diretor do Museu Paulista, quando a instituição passou a ganhar visibilidade espontânea na imprensa internacional. “Veículos como o New York Times fizeram matérias sobre o museu, mostrando que a USP tem estatura para estar nesse circuito. Internacionalizar a comunicação é uma forma de internacionalizar também a própria cultura e a extensão, atraindo pesquisadores, artistas e estudantes de outros países”.

Nesse contexto, a diplomacia cultural surge como conceito-chave. “A USP é um dos ativos de soft power mais valiosos que o Brasil tem. Em muitos lugares do mundo, não é preciso explicar o que é a USP, uma visibilidade permite que a Universidade atue como ponte entre países, usando seus ativos culturais e científicos para promover diálogo e cooperação internacional”.

Para além da projeção externa, Amâncio Oliveira enfatiza o papel da cultura e da extensão como portas de entrada da USP para a sociedade e também para a própria comunidade universitária. “Existe a ideia de que a Universidade é um lugar onde você chega até o portão e volta. A cultura quebra essa lógica. Museus, centros de difusão científica e programas culturais criam uma comunicação fluida, acessível e empática. Você entra em um museu, em um centro de divulgação científica, e isso pode despertar um interesse que leva a trajetórias acadêmicas mais profundas. E essa lógica também se aplica ao público interno. Quando estudantes, servidores e docentes conhecem melhor a própria Universidade e têm um contato mais próximo com diferentes espaços e atividades de cultura, isso gera pertencimento, orgulho institucional e efeitos positivos sobre a motivação e a saúde mental. Quanto mais você conhece e vive a Universidade, mais você se sente parte dela”.

Valorizar a tradição sem abrir mão de novas abordagens de gestão

As edições presenciais da Feira USP e as Profissões (foto), que atraíam dezenas de milhares de jovens à USP, devem voltar à programação da PRCEU, assim como o Programa Nascente e roteiros do Giro Cultural, já tradicionais no calendário anual da Universidade – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A gestão também prevê a retomada e o fortalecimento de programas tradicionais, como o USP e as Profissões, que volta ao formato presencial, o Programa Nascente e o Giro Cultural. No caso do Giro, a proposta é ampliar os roteiros e integrá-lo a circuitos culturais e turísticos, valorizando equipamentos dentro e fora do campus.

Outra proposta é o estabelecimento de um fundo de apoio à curricularização da extensão. “A ideia é garantir um volume razoável de recursos em um fluxo estável que permita às unidades planejar ações de médio e longo prazo. Se a meta é valorizar a extensão, é preciso ter recursos para isso”.

Para enfrentar os desafios de financiamento, metrificação e organização da extensão, a PRCEU aposta na estruturação do Escritório de Valorização da Extensão, que terá dupla função: apoiar a captação de recursos e estruturar indicadores em interação com a Egida USP (Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico).

Essa visão dialoga diretamente com a experiência de Amâncio como vice-diretor do Museu Paulista durante o processo de restauração e ampliação do Museu do Ipiranga. “Foi uma experiência transformadora. O processo de reforma que aconteceu ali mostrou que cenários aparentemente insolúveis podem ser enfrentados com mudança de mentalidade, profissionalização das equipes, captação de recursos e diálogo com o setor privado. Se foi possível lá, por que não pode ser em outros órgãos?”. Para o pró-reitor, o legado do museu não está apenas na escala do projeto, mas na cultura institucional que ele ajudou a criar. “Mostrou que é possível fazer, aprender e mudar. E isso precisa transbordar para toda a Universidade”.

Durante a gestão, Amâncio terá como pró-reitor adjunto Iran José Oliveira da Silva, que traz consigo uma experiência consistente na área de cultura e extensão e na própria PRCEU. Além de já ter sido membro do Conselho de Cultura e Extensão (CoCEx) como presidente da Comissão de Cultura e Extensão (CCEx) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), o professor também atuou como coordenador da Câmara de Cursos e como assessor de Gabinete da PRCEU.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Quem é

Amâncio Jorge Silva Nunes de Oliveira é bacharel em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). É professor titular do Instituto de Relações Internacionais (IRI), onde foi vice-diretor e presidiu a Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa. Foi responsável pela implementação do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e pela criação do acordo de dupla titulação entre a USP e o King’s College London.

Atuou como vice-diretor do Museu Paulista no período de conclusão do projeto de restauração e ampliação do Museu do Ipiranga. É professor do Programa de Pós-Graduação da FFLCH, coordenador científico do Centro de Estudos das Negociações Internacionais, coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cenas Abertas, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e coordenador da Escola de Diplomacia Científica e da Escola de Diplomacia da Inovação da USP.

Texto: Michel Sitnik
Arte: Gustavo Radaelli – Estagiário sob orientação de Simone Gomes

Jornal da USP

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