Modelos impossíveis sustentam a física, mas a matemática dá forma ao infinito, revelando a estrutura escondida em divergências aparentemente caóticas

Presença da sequência de Fibonacci no conjunto de Mandelbrot. O Conjunto de Mandelbrot é a representação visual mais famosa dos fractais, estruturas geométricas infinitamente complexas em que padrões se repetem em diferentes escalas. Os fractais estão amplamente presentes na natureza: aparecem nos padrões de plantas e vegetais, nos brônquios pulmonares, na ramificação dos raios durante as tempestades, em cristais de neve e no formato de rios, nuvens e cadeias montanhosas, por exemplo – Foto: Sepitropova / Wikimedia Commons
O infinito costuma marcar os limites da compreensão humana. Na matemática, ele surge naturalmente em equações e demonstrações; na física, porém, costuma ser visto como um sinal de alerta. Ainda assim, boa parte das teorias que descrevem o Universo depende justamente de modelos que produzem infinitos. Um trabalho em física matemática de pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP mostra como ferramentas matemáticas modernas conseguem tratar singularidades – pontos em que grandezas como massa, carga elétrica ou força parecem explodir até o infinito.
A partir da teoria de distribuições, Pedro de Castro Diniz, pesquisador do IFSC, oferece um guia matemático para lidar com funções singulares, objetos que deixam de ser bem definidos em determinados pontos. Um exemplo clássico envolve a gravidade: conforme a distância entre dois corpos diminui, a força gravitacional cresce vertiginosamente. Em modelos idealizados, quando a separação entre os corpos tende a zero, a intensidade da força explode para o infinito.

O paradoxo de Zenão, ou de Aquiles e a Tartaruga, propõe uma corrida em que a tartaruga larga na frente. Para alcançá-la, Aquiles precisaria primeiro chegar ao ponto onde ela estava; mas, nesse intervalo, ela já teria avançado um pouco mais. Esse processo pode continuar indefinidamente, pois Aquiles precisaria atravessar infinitos pontos intermediários. Justamente por isso, Aquiles jamais poderia alcançar ou até mesmo ultrapassar a tartaruga. Embora o argumento pareça fazer sentido no papel, ele entra em conflito direto com o que observamos na realidade. O erro do paradoxo está em presumir que o tempo para percorrer uma soma infinita de distâncias tenha que ser, também, infinito – Foto: Martin Grandjean / Wikimedia Commons
“Uma Fita de Möbius”, obra surrealista do artista holandês M. C. Escher. A fita de Möbius é um objeto matemático (superfície topológica) não orientável. Ela parece ter dois lados e duas bordas, mas na verdade possui apenas um lado e uma única borda. Por isso, ao percorrer sua superfície, voltamos ao ponto de partida sem encontrar uma separação entre “dentro” e “fora” — uma metáfora clássica para continuidade e infinito – Foto: Dror Bar-Natan / Arquivo Pessoal
Tendo o infinito como elo, as singularidades revelam uma tensão antiga entre matemática e física. De acordo com Vinicius Carvalho, pesquisador em Filosofia da Física na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), enquanto a matemática pode explorar livremente entidades abstratas, a física mantém um compromisso histórico com a observação e a experiência. “Os matemáticos podem ser audazes”, explica. “Os físicos também podem imaginar livremente, mas, em algum momento, suas teorias precisam voltar ao mundo observável.”
É justamente nesse ponto que as singularidades se tornam problemáticas. “A singularidade representa o fim da física”, afirma. Isso acontece porque, nesse ponto, desaparecem as próprias grandezas que a física procura descrever: espaço, tempo, massa e energia. O resultado é um objeto matemático puro: um ponto sem dimensão, que não possui propriedades físicas observáveis. Por isso, elas ocupam uma região de fronteira entre dois modos diferentes de compreender o mundo: de um lado, a abstração matemática; de outro, a exigência física de que as teorias mantenham algum vínculo com a experiência.
Ainda assim, o pesquisador ressalta que os infinitos têm um papel importante na construção das teorias. Eles permitem explorar possibilidades, formular hipóteses e desenvolver novos modelos, ajudando, inclusive, a resolver problemas do mundo real. Isso não significa, porém, que todos os elementos introduzidos por essas teorias possuem uma contraparte física observável.
“Toda física é matemática, mas nem toda matemática é física”, afirma Carvalho.
Entre idealizações, singularidades e abstrações, o infinito talvez revele menos sobre a existência de algo sem fim na natureza e mais sobre o processo de construção do conhecimento científico, num esforço contínuo para descrever um mundo que é sempre mais complexo do que as teorias que construímos para explicá-lo. Nas palavras de Einstein: “Uma coisa que aprendi numa longa vida: que toda a nossa ciência, confrontada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é o que temos de mais precioso”.
O artigo Estrutura distribucional de derivadas singulares: aplicações em eletrostática e elasticidade foi publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física e pode ser acessado neste link.
Mais informações: dinizcpedro@gmail.com, com Pedro de Castro Diniz
Jornal da USP




