Com mais de 7 mil metros quadrados de laboratórios, o novo espaço reforça a atuação do centro e projeta nova fase de expansão científica e tecnológica do campus

(Da esq. p/dir.) Vanderlei Salvador Bagnato, Osvaldo Novais de Oliveira Junior, Carlos Gilberto Carlotti Junior e Ana Paula Ulian de Araujo no descerramento da placa do prédio do Cepix/Cepof – Fotos: Vladimir Tasca/SCS-RP
“Aqui se consolida um sonho científico que atravessou décadas e agora encontra o espaço físico necessário para crescer ainda mais”, afirmou o professor Vanderlei Salvador Bagnato, coordenador do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) e professor sênior do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, na cerimônia de descerramento da placa que oficializou a entrega do novo edifício do centro nesta segunda-feira, 8 de dezembro, em São Carlos.
O evento foi dividido em dois momentos: primeiro, ocorreu o descerramento da placa e, depois, uma solenidade em que a comunidade acompanhou a apresentação sobre a história do Cepof, um dos Centros de Pesquisa Especiais (Cepix) da USP, e sobre o prédio que abrigará uma das estruturas “mais tradicionais, produtivas e reconhecidas da fotônica brasileira”, afirmou o coordenador.
A nova sede, distribuída em quatro andares e 7,2 mil metros quadrados, reúne 54 laboratórios dedicados a pesquisas em óptica e fotônica, incluindo física atômica, biofotônica e nanoplasmônica. O edifício também possui salas para docentes, alunos, equipes técnicas e administrativas, além de sediar a Unidade Embrapii do IFSC, com laboratórios voltados à pesquisa e desenvolvimento em áreas aplicadas. No piso superior, um espaço de integração reúne salas de seminários, áreas de convivência e o núcleo de difusão do Cepof, com estúdio de gravação, edição e ambientes pensados para atividades de comunicação científica.
Ao agradecer a presença dos participantes, Bagnato relembrou a longa trajetória que levou à construção do edifício, marcada por entraves administrativos, readequações e desafios inerentes à governança dos recursos públicos. Fez questão de situar o significado do momento: “Esse prédio tem uma história que já está se prolongando, mas ele está de pé. E nós temos tido um apoio constante da Universidade. Não é justo atribuir os atrasos à USP; eles se devem aos processos que regem o uso dos recursos”.
O coordenador destacou o papel da atual gestão da Universidade, em especial do reitor, Carlos Gilberto Carlotti Junior, e do diretor do IFSC, Osvaldo Novais de Oliveira Junior, no processo que permitiu a conclusão do edifício. Também lembrou as sucessivas administrações que contribuíram para essa construção ao longo dos anos, citando os professores Vahan Agopyan e Antonio Carlos Hernandes, reitor e vice-reitor de 2018 a 2022.
Bagnato falou, ainda, sobre o significado do novo prédio para as mais de 100 pessoas da Universidade que trabalham nele, número que pode ultrapassar 200, se contar com os colaboradores externos. “O impacto do que fazemos não é pequeno. Somos referência brasileira em muitas coisas, pioneiros em outras, e estamos agora em um momento estratégico, em que o conhecimento que antes víamos como básico se converte no motor das tecnologias que o País precisa desenvolver. Esse novo espaço ultrapassa a dimensão física. A Universidade tem que estar entre as 50 melhores do mundo, pelo tamanho, relevância e pelo investimento que a sociedade faz nela.”
Comentando o futuro imediato, lembrou que a cerimônia não equivale ainda à inauguração definitiva, que só ocorrerá quando todos os laboratórios estiverem instalados e operando plenamente, uma empreitada tão trabalhosa quanto montar um quebra-cabeça quântico. “Este é só mais um, e vamos avançar. Temos a melhor coisa que poderíamos ter: a USP por trás de nós, e pessoas qualificadas ao nosso lado.”
Um centro que cresce junto com a USP

Fachada do prédio do Cepix/Cepof – Foto: Vladimir Tasca/SCS-RP
O Cepix/Cepof, reforçou o professor, integra o modelo estratégico adotado pela USP para estruturar centros de alto impacto, reunindo equipes consolidadas, ampliando a capacidade de pesquisa e inovação e permitindo que diferentes áreas operem de forma articulada em torno de problemas contemporâneos. O Cepof, por sua vez, tem uma história ainda mais antiga dentro desse modelo. Foi um dos primeiros Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) implementados pela Fapesp em 1999, reunindo pesquisadores dedicados à óptica, fotônica, física atômica, biofotônica, telecomunicações, instrumentação de saúde e aplicações diversas da luz como ferramenta de conhecimento.
Para o coordenador, a missão sempre foi dupla: produzir ciência de fronteira e formar recursos humanos altamente qualificados. “Ao longo de mais de duas décadas e meia, o centro gerou tecnologias, empresas, laboratórios parceiros no País e no exterior, além de vasto impacto na formação de estudantes. O centro não é obra de um líder, mas de um conjunto de grupos que dividem responsabilidades. Isso é o que caracteriza um centro de excelência: liderança compartilhada, desafios comuns e compromisso de longo prazo.”
Durante sua fala, Bagnato recuperou o papel contemporâneo da ciência fotônica na vida social e econômica. “Vivemos desafios que não se vencem pela força humana, mas pela ciência: saúde, alimentação, clima, telecomunicação, um mundo todo conectado. Quem domina ciência oferece o melhor para a sociedade. E estamos num momento especial: aquilo que antes se chamava ciência básica virou pilar essencial das tecnologias. Olhe para onde olhar: tudo exige ciência.”
“A pesquisa tem responsabilidade social. Temos que devolver à sociedade o que recebemos dela. Educação científica é cidadania. Uma pessoa que entende ciência busca a verdade, defende ética, ajuda a construir uma sociedade melhor.” Nesse sentido, lembrou que o Cepof desenvolve tecnologias amplamente utilizadas, sobretudo na saúde, e que é fundamental preparar profissionais para utilizá-las. “Não adianta criar tecnologia se o enfermeiro e o médico não sabem usar. Precisamos instrumentalizar o ensino e preparar os profissionais, e faremos isso com ainda mais força neste novo prédio.”
Relevância estratégica

Cerimônia de apresentação do Cepix/Cepof com Vanderlei Salvador Bagnato, Osvaldo Novais de Oliveira Junior, Carlos Gilberto Carlotti Junior – Foto: Vladimir Tasca/SCS-RP
O diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Osvaldo Novais de Oliveira Junior, reuniu em sua fala os dois momentos do evento, reforçando o valor simbólico da entrega e a responsabilidade institucional que ela implica. Ele destacou o compromisso do IFSC com a qualidade da pesquisa e com a formação de seus estudantes, lembrando que o novo edifício é a culminância de esforços contínuos e permitirá à unidade avançar em áreas estratégicas da física e da engenharia, além de apoiar iniciativas multidisciplinares associadas ao Cepix/Cepof.
O reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, participou dos dois momentos da cerimônia e destacou que o novo edifício representa mais do que infraestrutura: “Esse prédio representa não só uma estrutura física moderna, mas também uma ideia, uma área de conhecimento que nós queremos desenvolver na Universidade e transformar em um centro nacional de tecnologias quânticas.” Acrescentou que a USP fará “um investimento bastante grande no centro de tecnologias quânticas, tanto em São Carlos quanto em São Paulo”, e que os frutos desses investimentos devem ser percebidos nos próximos anos.
Carlotti ressaltou a relevância estratégica da área e a necessidade de que a USP lidere esse campo emergente. “Queremos uma USP participativa, na fronteira do conhecimento, com as pessoas se lembrando do que foi desenvolvido na USP e em São Carlos.” O reitor ainda ressaltou que a Universidade já vem ampliando suas ações em saúde pública, inovação e difusão, mencionando os trabalhos do Cepof em tecnologias médicas, inclusive em países africanos. “É isso que queremos da nossa universidade: uma universidade pujante, de vanguarda, que impacte a vida das pessoas”, afirmou. Lembrou ainda que o financiamento da USP é resultado direto da confiança da população paulista: “O nosso financiamento não é uma decisão apenas do governador ou da Assembleia; é uma decisão do povo de São Paulo.”
Ao tratar dos investimentos futuros, anunciou que, na semana seguinte, a USP lançaria novas iniciativas estratégicas: “Vamos lançar o Centro de Tecnologias Quânticas, o supercomputador para inteligência artificial, uma fábrica de microprocessadores e uma ressonância para estudos de neurociência.” Disse esperar a presença dos pesquisadores e ressaltou que esses aportes demonstram o compromisso da Universidade com áreas essenciais. Também destacou que o prédio de Robótica, ao lado, já teve valores liberados e licitação concluída, reforçando a integração entre fotônica, robótica, inteligência artificial e outras frentes do campus.
Na cerimônia, Carlotti ainda agradeceu o trabalho conjunto de sucessivas diretorias do IFSC e reconheceu o papel central de Osvaldo Novais de Oliveira Junior na condução institucional. O reitor explicou ainda a lógica mais ampla da criação dos Cepix e de outros nove centros vinculados à Reitoria, defendendo a necessidade de estruturas interdisciplinares ágeis, capazes de dialogar com demandas complexas da sociedade. “Esses centros não competem com o que já temos, eles acrescentam. Eles dão velocidade ao Instituto de Física e fortalecem nossa relação com a sociedade paulista.” Observou que não era admissível simplesmente “apagar a luz” de Cepids após 10 ou 20 anos de financiamento, e que o novo modelo dá autonomia e flexibilidade para contratos, inovação e relações com empresas.
Ao tratar do financiamento da pesquisa, destacou o momento favorável, combinando os esforços da Fapesp com novos modelos como CCDs, CPAs, Embrapiis e retornos de financiamento federal, como INCTs, Finep e BNDES. Afirmou que tais arranjos exigem pesquisa de qualidade, tanto básica quanto aplicada: “É enganoso achar que empresa quer pesquisa superficial. Elas querem pesquisa de qualidade para ser transformada em inovação real.” E acrescentou que São Carlos tem sido protagonista nesse cenário. Comentou ainda que grandes investimentos da USP, em inteligência artificial, tecnologias quânticas, microprocessadores e neurociências, refletem a necessidade de posicionar a Universidade como liderança nacional. Reforçou que isso só é possível porque a USP manteve rigor na gestão financeira, permitindo recuperar prédios, expandir bolsas e sustentar programas como os do CNPq, do qual o IFSC é um dos maiores usuários.
O reitor concluiu falando da importância da formação qualificada e do impacto social da Universidade, reafirmou o apoio ao campus de São Carlos e disse esperar voltar como professor para acompanhar o desenvolvimento do centro: “A USP agradece o que São Carlos tem feito pela nossa universidade. Confio que este prédio vai significar um novo tempo para São Carlos e para a USP”.
A cerimônia também contou com mensagens enviadas virtualmente por lideranças científicas nacionais, como Álvaro Prata (Embrapii), Carlos Alberto Aragão (Finep), Luiz Davidovich (UFRJ) e Helena Nader (ABC), que ressaltaram a relevância histórica do grupo para o desenvolvimento científico nacional, a importância da continuidade institucional e o papel decisivo de infraestrutura de excelência para produzir ciência de excelência, condição que, segundo afirmaram, mantém o Brasil no mapa da fotônica mundial.
Por Rose Talamone – Jornal da USP



