Em entrevista, Aluisio Segurado fala sobre investimentos em permanência estudantil, inclusão, moradia, orçamento, desdobramentos da paralisação e participação dos estudantes nos colegiados centrais

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Ao Jornal da USP, o reitor Aluisio Segurado detalha as políticas de permanência estudantil da Universidade, que hoje somam cerca de R$ 460 milhões em investimentos, e explica como o Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) e o Programa Unificado de Bolsas (PUB) se articulam para garantir não apenas o acesso, mas a permanência e a integração dos estudantes na vida acadêmica.
Segurado também comenta as negociações com representantes estudantis durante o movimento de paralisação, defende a necessidade de equilíbrio orçamentário, apresenta as iniciativas em andamento para atender às demandas apresentadas pelos estudantes e aborda a criação de uma nova estrutura permanente de diálogo com os alunos. “É importante preservar o diálogo, fortalecer as instituições e buscar soluções dentro dos marcos democráticos que regem a vida universitária e a sociedade brasileira”, afirma.
Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

O reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Jornal da USP – A assistência estudantil é uma prioridade para a Universidade? Quanto a USP investe nas políticas de permanência estudantil?
Aluisio Segurado – O PAPFE é o maior programa de apoio à permanência estudantil do Brasil. Se somarmos todos os apoios concedidos aos estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica — como auxílios, bolsas, refeição subsidiada, transporte, moradia e atividades esportivas —, os investimentos chegam a R$ 460 milhões, valor aprovado pelo Conselho Universitário.
Se compararmos esse montante com o de 2016, quando as políticas de ação afirmativa começaram a ser implementadas na USP, trazendo para a Universidade estudantes com um perfil socioeconômico diferente, observamos uma mudança significativa. Naquela época, a rubrica destinada à permanência estudantil era de R$ 125 milhões.
Esse crescimento é natural. A mudança no perfil dos estudantes exige maior investimento em políticas de permanência, e essa foi uma decisão consciente da Universidade: ampliar a inclusão, aumentar a diversidade e garantir condições para que esses estudantes concluam seus cursos. Não faria sentido ampliar o acesso, permitir a matrícula e depois perder esses alunos por falta de condições de permanência.
Eu ousaria dizer que este talvez seja um dos maiores programas de permanência estudantil do mundo. Em muitos países não existem universidades com o mesmo perfil da USP, que, além de pública e gratuita, não cobra taxas acadêmicas e ainda oferece condições para que os estudantes se mantenham durante a graduação.
Uma questão que considero muito importante é que, para nós, permanência estudantil não se resume ao auxílio financeiro. Evidentemente, se hoje recebemos estudantes oriundos de famílias com renda mais baixa, é necessário oferecer suporte financeiro para garantir condições mínimas de subsistência e estudo.
Após a criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), passamos a distinguir auxílio e bolsa. O auxílio é concedido exclusivamente com base na avaliação da situação de vulnerabilidade socioeconômica. Outro aspecto importante é que, desde a aprovação do programa, ficou estabelecido que, uma vez preenchidos os critérios de vulnerabilidade e concedido o auxílio, o estudante o manterá durante toda a graduação.
Posteriormente, o Conselho de Inclusão e Pertencimento aprovou que esse benefício fosse garantido até o prazo máximo de conclusão do curso, e não apenas até o tempo ideal. Esse prazo máximo corresponde a 50% além da duração regular da graduação. Durante esse período, não há reavaliações periódicas da condição socioeconômica do estudante. Ainda que sua situação possa se modificar ao longo do tempo, o auxílio permanece garantido até a conclusão do curso dentro do prazo previsto.
Jornal da USP – Que critérios o aluno deve seguir para que o auxílio seja mantido até o final do curso?
Aluisio Segurado – A única exigência estabelecida é que o estudante mantenha uma frequência mínima às aulas e um aproveitamento acadêmico mínimo. Partimos da premissa de que parte desses alunos pode enfrentar dificuldades adicionais durante a adaptação à vida universitária. Por isso, o critério adotado para a manutenção do auxílio nos anos subsequentes ao da concessão prevê um aproveitamento mínimo correspondente a 20% dos créditos matriculados.
O que nos causou estranheza foi que uma das reivindicações apresentadas pelos estudantes era, simultaneamente, o aumento do valor do auxílio e a eliminação de qualquer exigência de frequência ou desempenho acadêmico para sua manutenção.
“A mudança no perfil dos estudantes exige maior investimento em políticas de permanência”
Jornal da USP – Por que a Reitoria não pode aumentar o valor do auxílio do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE)?
Aluisio Segurado – Diferentemente do que tem sido propagado, é importante esclarecer que houve diálogo com a Reitoria. Realizamos três longas reuniões de negociação para discutir essas questões. Somadas, elas totalizaram cerca de 20 horas de conversa. A primeira, da qual participei integralmente, durou cinco horas.
Nessas reuniões, discutimos, entre outros temas, a questão do valor do auxílio do PAPFE. Também explicamos que o orçamento que sustenta o programa havia sido aprovado pelo Conselho Universitário, na gestão anterior, em dezembro do ano passado.
O PAPFE foi instituído em 2022 e reuniu, em um único programa, diversos auxílios já oferecidos pela Universidade. Além disso, passou a diferenciar os auxílios financeiros das bolsas. O auxílio financeiro é concedido exclusivamente com base na avaliação da vulnerabilidade socioeconômica e permanece garantido durante toda a graduação do estudante beneficiado.
Desde sua criação, o programa vem passando por reajustes periódicos, sempre previstos no orçamento anual da Universidade, aprovado pelo Conselho Universitário. Em dezembro do ano passado, foi aprovado o reajuste que elevou o valor do auxílio de R$ 850 para R$ 885, porcentual superior à inflação acumulada no período.
Durante uma das reuniões de negociação, acredito que na terceira, um estudante da FEA [Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária], que participava da mesa, argumentou que, desde a criação do programa, teria havido perda do poder de compra do auxílio e que, se fosse aplicado o índice IPC-Fipe, o valor deveria ser superior. Pedi que ele me encaminhasse os cálculos.
Fizemos um intervalo na reunião e retornamos com uma contraproposta imediata: elevar o auxílio para R$ 912. A reação dos estudantes foi de surpresa. No entanto, eles informaram que esse valor já não atenderia às reivindicações e que a demanda passava a ser equivalente a um salário mínimo paulista, ou seja, R$ 1.800.
Naquele momento, deixei claro que essa seria nossa proposta final em relação ao valor do auxílio, pois era o montante que a Universidade poderia absorver dentro de seu orçamento. Trata-se de uma política permanente, não de um investimento pontual. Portanto, qualquer ampliação precisa ser sustentável ao longo do tempo.
“Entendo negociação como um processo de busca de consensos entre partes que podem ter posições divergentes”
Jornal da USP – Professor, foi por isso que o Programa Unificado de Bolsas (PUB) foi ampliado para os ingressantes?
Aluisio Segurado – Sim. A medida surgiu como uma forma de complementar o apoio oferecido aos estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica e, ao mesmo tempo, favorecer sua integração à vida acadêmica.
Quando o estudante participa de um projeto de apoio ao ensino, atuando como monitor, auxiliando docentes ou desenvolvendo atividades de iniciação científica, extensão, pesquisa ou inclusão, ele passa a conviver mais intensamente com colegas e professores envolvidos nessas iniciativas. Costumo chamar isso de uma “âncora de integração”.
Ou seja, além do auxílio financeiro, a Universidade oferece oportunidades para que o estudante fortaleça sua permanência por meio do envolvimento em projetos acadêmicos de diferentes naturezas.
Essa reflexão nos levou a identificar uma oportunidade de aperfeiçoamento do PUB. Desde sua criação, os editais eram lançados no meio do ano, e o processo seletivo ocorria na transição entre os semestres. Assim, os estudantes começavam a receber a bolsa apenas em setembro, com vigência até agosto do ano seguinte.
Nunca houve interrupção na publicação desses editais. No entanto, nos perguntamos por que o programa necessariamente precisava começar em setembro. A resposta era simples: tratava-se apenas de uma característica herdada do momento em que o programa foi criado.
A lacuna identificada estava justamente no período de espera enfrentado pelos ingressantes. O estudante que entrava na Universidade precisava aguardar vários meses até poder se candidatar a uma bolsa.
Por isso, propusemos a ampliação do PUB para os ingressantes. A medida permitirá que os novos alunos ingressem em projetos já em andamento, convivendo desde o início com estudantes veteranos e docentes. Dessa forma, serão acolhidos e integrados em diferentes frentes da vida universitária.
Atualmente, contamos com mais de 3 mil vagas em projetos destinados a estudantes de graduação e pós-graduação. Isso nos permite incorporar uma parcela significativa dos ingressantes beneficiários do PAPFE, possibilitando que eles acumulem o auxílio financeiro e a bolsa PUB.
Para nós, permanência estudantil envolve todas essas dimensões: o auxílio financeiro para quem está em situação de vulnerabilidade e as bolsas que promovem a inserção dos estudantes em projetos de ensino, pesquisa, extensão, inclusão e pertencimento.

O reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Jornal da USP – Como o senhor avalia a crítica de que a Reitoria não negociou com os estudantes?
Aluisio Segurado – Entendo negociação como um processo de busca de consensos entre partes que podem ter posições divergentes. No entanto, o que estava sendo apresentado como negociação, em alguns momentos, correspondia à expectativa de que todas as reivindicações fossem integralmente atendidas como condição para encerrar as discussões.
Isso não era possível. A pauta apresentada não se limitava a temas relacionados à vida universitária. Ela incluía reivindicações sobre questões que extrapolam a competência da administração da Universidade, como a situação na Palestina ou o fim da escala de trabalho 6×1 para trabalhadores terceirizados. São pautas legítimas, mas que não podem ser resolvidas por um gestor universitário.
Ainda assim, mantivemos o diálogo. Trouxemos especialistas em mediação de conflitos e constituímos uma comissão de moderação e diálogo institucional, formada por servidores e docentes capacitados nessa área. Também convidamos uma professora externa à Universidade, com ampla experiência em mediação de conflitos.
Essa comissão realizou reuniões separadas e conjuntas com as partes envolvidas. Em uma das últimas reuniões mediadas pelo grupo, recebemos uma pauta contendo 147 reivindicações. Muitas delas já haviam sido apresentadas anteriormente, inclusive no encontro realizado em 14 de abril, quando eu mesmo me reuni com os estudantes.
Outro ponto que considero importante esclarecer é a afirmação de que o reitor não conversa com os estudantes. Quem faz essa crítica não são os cerca de 90 mil estudantes da USP, mas um grupo que assumiu para si a representação de uma pauta estudantil bastante ampla e que se autodenominou comando de greve.
Tenho recebido manifestações de muitos estudantes que não integram entidades estudantis, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) ou o chamado comando de greve.
São alunos que enviam e-mails, me abordam pessoalmente ou encaminham ofícios, inclusive com fundamentação jurídica, solicitando que a Reitoria garanta seu direito de frequentar as aulas.
Esses estudantes relatam situações em que grupos organizados invadem salas de aula, promovem piquetes físicos que impedem o livre acesso aos espaços universitários, dificultam a atuação de professores e realizam os chamados piquetes sonoros, gerando níveis de ruído incompatíveis com a realização de atividades acadêmicas.
É importante destacar que, atualmente, a maioria dos estudantes da USP já retomou suas atividades normalmente. Muitos compreenderam que houve avanços nas discussões e que diversas demandas estão sendo encaminhadas por meio dos canais institucionais adequados.
Eu queria fazer um comentário adicional. Recentemente, nós levantamos dados sobre a participação estudantil nas eleições para representação nos órgãos colegiados da Universidade, analisando os últimos cinco anos.
O que me chamou atenção foi o fato de que, no ano em que houve maior participação discente na escolha de representantes nos colegiados centrais, esse índice não ultrapassou 6%. Em outros anos, a participação ficou entre 2% e 3% do total de estudantes.
Esse dado indica, a meu ver, uma certa apatia do conjunto dos estudantes em relação à ocupação e à valorização de espaços institucionais relevantes, como os colegiados das unidades e da Reitoria.
É importante destacar também que essas representações não são homogêneas. Na última reunião do Conselho Universitário, realizada no dia 26 de maio, observamos uma situação que considero relevante.
O Conselho Universitário é o principal órgão deliberativo da USP e conta com 15 representantes discentes: dez de graduação e cinco de pós-graduação. Naquela reunião, seis desses 15 representantes impediram a continuidade dos trabalhos, impossibilitando a realização da sessão, inclusive com restrições à fala de professores e da Reitoria, o que levou à suspensão da reunião por falta de condições de segurança.
É importante lembrar que esses representantes foram eleitos por uma parcela reduzida do conjunto de estudantes — em alguns casos, menos de 5% do total.
Quero deixar claro que não se trata de afirmar que a paralisação represente todos os estudantes da Universidade. Ainda que tenha havido paralisação em diversas unidades, isso não significa que a totalidade dos estudantes tenha aderido ao movimento. Para ilustrar, na Escola Politécnica, que é a segunda maior unidade da USP, com cerca de 5 mil estudantes de graduação, nenhuma das assembleias que deliberaram pela deflagração ou continuidade da greve contou com mais de 200 participantes.
O que estou defendendo, portanto, é a necessidade de repensarmos o diálogo com os estudantes e de reforçarmos a importância das representações institucionais e dos espaços formais de participação. Esses canais precisam ser mais valorizados, pois são fundamentais para que as diversas vozes estudantis possam ser efetivamente consideradas na vida universitária.
Jornal da USP – Quais são as demandas que já estão sendo encaminhadas?
Aluisio Segurado – Já foram implementados oito grupos de trabalho para tratar de temas como moradia estudantil, restaurantes universitários, transporte, bem-estar da população trans e dos estudantes indígenas, acesso por cotas para pessoas com deficiência (PCD), inclusão e permanência de estudantes com deficiência e espaços estudantis.
Esses grupos foram constituídos com representantes indicados pelos próprios estudantes e por membros da administração universitária. Cada um deles possui pauta definida e cronograma de trabalho.
O objetivo é analisar demandas que não puderam ser atendidas de forma imediata, seja porque exigem estudos adicionais, seja porque dependem de discussões mais amplas e de avaliação técnica e orçamentária.
Esperamos que esses debates resultem em propostas concretas, que poderão ser encaminhadas à Reitoria e, quando necessário, submetidas aos colegiados competentes, seja no âmbito das Pró-Reitorias, seja no próprio Conselho Universitário.
“Esperamos que os debates dos grupos de trabalho resultem em propostas concretas”
Jornal da USP – Os investimentos na política de permanência estudantil não podem ser ampliados?
Aluisio Segurado – Essa é uma decisão que cabe à Universidade de São Paulo como instituição. Se o investimento em permanência estudantil ultrapassar os atuais R$ 460 milhões, será necessário definir de onde virão os recursos adicionais. Essa discussão compete ao Conselho Universitário.
Além disso, vivemos um momento particularmente sensível. Assumi a Reitoria há poucos meses e uma das prioridades centrais deste primeiro ano de gestão é acompanhar atentamente os desdobramentos da reforma tributária e seus possíveis impactos sobre o financiamento das universidades estaduais paulistas.
Estamos diante de um cenário em que nem mesmo a manutenção do modelo orçamentário vigente desde 1989 está plenamente assegurada. Trata-se de um tema que exige atenção permanente e mobilização institucional.
Há setores da sociedade que se manifestam de forma crítica em relação ao financiamento público das universidades estaduais paulistas. Por isso, considero que este é um momento em que toda a comunidade universitária deveria estar unida na defesa da sustentabilidade financeira da Universidade.
Isso não significa desconsiderar reivindicações. Muitas delas são legítimas. Algumas podem ser atendidas imediatamente; outras exigem mais estudos e planejamento; e há aquelas que talvez precisem ser discutidas em um momento futuro, quando houver maior clareza sobre as condições orçamentárias da instituição.
Defendo que a permanência estudantil é, sim, uma prioridade da Universidade de São Paulo. Trata-se de uma política indissociável da política de inclusão adotada pela instituição. As duas caminham juntas.
Garantimos vagas, ampliamos o acesso e investimos na permanência. Mais do que oferecer auxílios financeiros, buscamos criar condições para que os estudantes participem plenamente da vida universitária, integrando-se a projetos acadêmicos, científicos, culturais e de extensão ao longo de sua trajetória na USP.
“Uma das prioridades deste primeiro ano de gestão é acompanhar atentamente os desdobramentos da reforma tributária”
Jornal da USP – Como o senhor avalia as condições de moradia no Crusp?
Aluisio Segurado – Em relação ao Crusp, temos blocos que passaram por reformas completas e hoje oferecem excelentes condições de moradia, com controle de acesso, sistemas de reconhecimento facial e recursos de acessibilidade.
Estamos falando, no entanto, de edifícios construídos na década de 1970, que têm “patologias” e demandam manutenção e intervenções constantes.
É importante compreender a complexidade dessas obras. Como promover reformas de grande porte para garantir acessibilidade plena e modernização das instalações com estudantes residindo nos prédios? Trata-se de um desafio logístico e operacional significativo.
Temos um cronograma de intervenções em andamento e constituímos um grupo de trabalho denominado Crusp+10, responsável por discutir o futuro da moradia estudantil na próxima década.
Esse é um processo que precisa ser construído coletivamente. Não se trata de uma questão que possa ser resolvida no curto prazo ou durante um período de paralisação de estudantes.
O que considerei preocupante foi a divulgação recente de um vídeo mostrando um prédio em condições extremamente precárias, que já havia sido interditado pela Reitoria justamente por questões de segurança e que aguarda processo licitatório para a realização de uma reforma estrutural. No vídeo, um estudante afirmava residir naquele local, o que transmitia à opinião pública uma situação que, segundo nossas informações, não corresponde à realidade.
Jornal da USP – Quais serão os próximos passos, professor?
Aluisio Segurado – Percebemos, neste momento de conflito, uma oportunidade para criar uma nova estrutura permanente de diálogo. Inspiramo-nos em uma experiência já consolidada na relação da administração com os servidores técnico-administrativos.
A USP possui a Comissão Permanente de Relações de Trabalho (Copert), formada por representantes da administração e do sindicato dos trabalhadores, que mantém um calendário contínuo de reuniões para discutir demandas e aprimorar as relações de trabalho.
Identificamos a possibilidade de criar um fórum semelhante voltado à comunidade estudantil. A proposta é instituir uma comissão permanente para acolher demandas universitárias, independentemente da existência de movimentos ou mobilizações específicas.
As demandas da vida universitária são dinâmicas e surgem continuamente. Ter uma instância permanente de escuta permitirá que essas questões sejam recebidas, analisadas e encaminhadas aos canais institucionais competentes de forma mais ágil e estruturada.
Acreditamos que a criação desse novo espaço de diálogo poderá contribuir para fortalecer a interlocução entre a gestão e os estudantes, oferecendo um ambiente permanente para a construção de soluções e o encaminhamento de reivindicações.
“Precisamos reforçar a importância das representações institucionais e dos espaços formais de participação”
Jornal da USP – Professor, como fica o calendário escolar da graduação? Os alunos serão prejudicados?
Aluisio Segurado – O calendário acadêmico prevê o início do segundo semestre em 3 de agosto. Algumas unidades já retomaram suas atividades, enquanto outras o fizeram na semana passada. Todas estão apresentando à Pró-Reitoria de Graduação propostas de adequação dos calendários para minimizar os impactos acadêmicos decorrentes da paralisação.
Certamente haverá prejuízos que não poderão ser totalmente eliminados. No entanto, estamos trabalhando para reduzi-los ao máximo.
Será necessária a reposição de conteúdos e, em muitos casos, a utilização de parte do período originalmente destinado às férias de julho para garantir o cumprimento das atividades essenciais. Cada unidade enfrentará desafios distintos, dependendo do tempo em que permaneceu com suas atividades interrompidas.
Algumas terão maior facilidade para reorganizar seus calendários; outras enfrentarão dificuldades mais significativas. O objetivo da Universidade é assegurar a reposição dos conteúdos fundamentais e mitigar, na medida do possível, os impactos pedagógicos da paralisação.
Jornal da USP – Que lição fica para o senhor sobre a paralisação dos estudantes?
Aluisio Segurado – Ao longo de mais de cinco décadas de atuação na Universidade, vivi diferentes situações de crise. Minha trajetória profissional esteve frequentemente associada ao enfrentamento de desafios complexos, especialmente na área da saúde.
Desde os anos 1980, acompanhei de perto a epidemia de aids, uma crise que provocou a perda de centenas de milhares de vidas e exigiu respostas institucionais permanentes. Mais recentemente, em 2020, coordenei a operação do Hospital das Clínicas no enfrentamento da pandemia de covid-19, outro momento de enorme impacto humano e social. Em todas essas experiências, procurei manter uma postura serena, baseada na escuta, na análise cuidadosa dos problemas e na busca das soluções possíveis diante das circunstâncias.
Esses primeiros três meses de Reitoria me mostraram que é importante ter uma escuta, buscar caminhos de conciliação, mas não aceitar confrontos que me digam que negociação é sinônimo de imposição de pautas. Também não aceitar situações de violência.
A Universidade de São Paulo pertence à sociedade paulista e está sujeita ao controle de diferentes órgãos externos, como o Tribunal de Contas do Estado, o Ministério Público e a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Cabe à Reitoria garantir o cumprimento das normas institucionais, dos regulamentos internos e da legislação vigente.
O principal aprendizado, portanto, é a necessidade de estar preparado para situações imprevistas, fortalecer permanentemente os mecanismos de diálogo e conduzir os conflitos dentro dos limites estabelecidos pelas instituições democráticas. A comunidade universitária faz parte da sociedade e, como tal, também está submetida às regras que organizam a convivência democrática.
Vivi a Universidade em um período em que o Brasil não era uma democracia. Sei o que significa o arbítrio e conheço os efeitos da violência de Estado. Felizmente, exerço esta função em um contexto de Estado Democrático de Direito, no qual os direitos fundamentais estão assegurados.
Talvez essa seja a principal reflexão que retiro deste momento: a importância de preservar o diálogo, fortalecer as instituições e buscar soluções dentro dos marcos democráticos que regem a vida universitária e a sociedade brasileira.
Texto: Adriana Cruz
Arte: Thiago Quadros
Por Jornal da USP
