Pesquisa do pós-doutorando Rafael Martins utiliza biomaterial desenvolvido à base de grafeno e quitosana para identificar contaminantes em um dos alimentos mais consumidos e exportados pelo Brasil

A União Europeia vetou a exportação de carne brasileira a partir de 3 de setembro de 2026 devido à falta de garantias sobre o uso de antibióticos na pecuária | Crédito da imagem: Envato
As recentes restrições impostas pela União Europeia às importações de produtos agropecuários brasileiros colocaram em evidência a importância do monitoramento de resíduos de medicamentos utilizados na produção animal. Nesse contexto, uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP) propõe uma nova metodologia para detectar antibióticos em carne bovina. Conduzida pelo pós-doutorando Rafael Martins e sob supervisão do professor Fernando Lanças, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Química Analítica de Alimentos (INCT-ALIM), a pesquisa utiliza técnicas miniaturizadas de extração combinadas a um biomaterial desenvolvido pelo pesquisador. A expectativa é que o método seja capaz de identificar, de forma mais rápida, sustentável e eficiente, cinco antibióticos pertencentes a três diferentes classes: cefalosporinas, macrolídeos e sulfonamidas.
Segundo Rafael, a preocupação com a presença dessas substâncias é justificada pelos possíveis impactos à saúde humana e pela necessidade de garantir a conformidade com as legislações, tanto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), quanto do mercado global. “Alguns desses compostos são extremamente tóxicos mesmo em concentrações muito baixas. Por isso, é importante que exista monitoramento constante para verificar se os níveis encontrados estão dentro dos limites estabelecidos pelos órgãos reguladores”, afirma o pesquisador.

O pós-doutorando Rafael Martins está desenvolvendo um método miniaturizado de detecção de três classes de antibióticos em carnes | Crédito da imagem: João M. Arenhart/Fontes Comunicação Científica
Segundo o pós-doc, a metodologia que ele propõe se classifica como multirresíduo, ou seja, vai permitir avaliar vários compostos em uma única análise. Atualmente em processo de validação, o pesquisador está verificando os parâmetros que comprovem a confiabilidade dos resultados, como sensibilidade, precisão e capacidade de detecção. “Primeiro precisamos demonstrar que o método é válido e capaz de identificar esses compostos de forma confiável. Depois disso, vamos aplicar a metodologia em amostras de carne obtidas por meio de parcerias com frigoríficos da região de São Carlos”, explica o pós-doc.

Esquema ilustra o método desenvolvido por Rafael Martin | Crédito da imagem: Rafael Martins
Um dos diferenciais do trabalho está no uso de uma técnica miniaturizada de preparo de amostras. Antes da análise, a carne passa por um processamento laboratorial que gera um extrato líquido. Esse extrato, então, é colocado em contato com uma seringa de apenas 500 microlitros que contém um biomaterial à base de grafeno e quitosana que funciona como um filtro, sendo capaz de capturar os antibióticos presentes na amostra. Quando o extrato passa pela seringa, os antibióticos ficam retidos nesse biomaterial, enquanto outras substâncias indesejadas são removidas. Em seguida, os compostos de interesse são recuperados e encaminhados para análise em um cromatógrafo acoplado à espectrometria de massas (LC-MS/MS), equipamento de alta precisão que consegue identificar e quantificar os compostos.
A estratégia reduz significativamente o tempo de análise e a geração de resíduos químicos. “Cada extração leva menos de cinco minutos, bem mais rápida que os métodos convencionais. Além disso, utilizamos quantidades muito menores de solventes, o que torna a metodologia mais sustentável e alinhada aos princípios da química verde”, destaca.

Em comparação aos métodos tradicionais, a técnica desenvolvida pelo pesquisador segue os princípios da química verde, utilizando quantidades reduzidas de solventes químicos | Crédito da imagem: João M. Arenhart/Fontes Comunicação Científica
A expectativa é concluir a validação e a aplicação do método ainda no segundo semestre deste ano. No futuro, a tecnologia poderá contribuir para aprimorar o monitoramento de contaminantes em alimentos e oferecer alternativas mais rápidas e sustentáveis para laboratórios de controle de qualidade.
“É muito importante desenvolver novas metodologias para a determinação de contaminantes em alimentos. Não basta apenas buscar resultados confiáveis, também precisamos propor técnicas que utilizem menos solventes, gerem menos resíduos e possam ser incorporadas futuramente às rotinas de monitoramento. Isso representa um avanço tanto para a ciência quanto para a segurança alimentar”, conclui Rafael.

“O Brasil consome e também exporta grandes volumes de carne. Por isso, entendemos que era importante investigar a presença desses contaminantes”, destaca Rafael Martins | Crédito da imagem: João M. Arenhart/Fontes Comunicação Científica
Matéria: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica
