As coleções das professoras Heloísa Liberalli Bellotto e Ana Maria de Almeida Camargo somam cerca de 5 mil volumes, com obras raras e essenciais para a pesquisa na área

Pesquisadora no Arquivo Geral da USP, órgão que recebeu a doação especializada em arquivologia – Foto: Cecília Bastos
Cerca de cinco mil obras especializadas em arquivologia e arquivística foram doadas à USP e estão sendo gradualmente cadastradas no Banco de Dados Bibliográficos da Universidade, para ficarem disponíveis para consulta do público e de pesquisadores internos e externos. Os acervos bibliográficos foram recebidos pelo Arquivo Geral (AG) da USP e faziam parte da coleção das professoras Heloísa Liberalli Bellotto e Ana Maria de Almeida Camargo, duas das maiores especialistas da área no País, já falecidas.
Os acervos doados trazem obras raras e de referência para a arquivologia, ciência que estuda a gestão, organização, preservação e acesso a documentos, assegurando autenticidade, valor para a administração e memória histórica. Entre elas estão obras sobre arquivística, que corresponde à prática profissional ou técnica aplicada da arquivologia, envolvendo ações concretas como classificação, conservação, digitalização, indexação e uso de arquivos no dia a dia.
A Coleção HLB (Heloísa Liberalli Bellotto) e a Coleção Amac (Ana Maria de Almeida Camargo) são formadas por livros, livretos (livros com menos de 50 páginas, mas não menos importantes por isso), trabalhos de eventos e periódicos. As coleções abrangem material publicado no Brasil e no exterior. No caso da Coleção HLB, há também obras relativas à história de São Paulo colonial, outro tema de interesse acadêmico da professora, e, no caso da Coleção Amac, há teses, também relativas à área arquivística.
“Tanto Heloísa quanto Ana Maria direcionaram sua vida acadêmica em torno do documento arquivístico e da arquivologia: além de se debruçarem sobre os conceitos e a prática dessa ciência, fizeram-no por meio do ensino generoso e especializado e por sua vasta produção intelectual, que influenciaram e ainda influenciarão fortemente muitas gerações de arquivistas no Brasil”, ressalta Lilian Miranda Bezerra, chefe de divisão do Arquivo Geral da USP.
Entre os livros doados estão o Glossário de Paleografia e Diplomática, de João Eurípedes Franklin Leal e Marcelo Nogueira de Siqueira, da editora Luminária; Arquivologia para Concursos – Teoria, Legislação e Questões, de Anderson Gomes Barbosa e André Malverdes, da editora Iluminus; Arquivologia Brasileira, de Angélica Alves da Cunha Marques, da editora AAB; e Arquivos Online: Ações Educativas no Universo Virtual, de Adriana Carvalho Koyama, da editora Thesis.
Coleções
A Coleção HLB foi doada ao Arquivo Geral por sua família logo após o falecimento de Heloísa, que sempre manteve forte vínculo com o AG, seus servidores técnicos e docentes da USP. Entre eles estavam a historiadora e especialista em arquivos Ana Maria de Almeida Camargo e Johanna W. Smit, também referência na área. Juntas, formaram a tríade que, com apoio dos servidores técnico-administrativos, idealizou e implementou o projeto que deu origem ao Sistema de Arquivos da USP (SA-USP), em 1997. Anos depois, em 2005, foi criado o AG como órgão central do sistema.

Professoras Johanna Smit, Heloísa Belloto e Ana Maria Camargo – Foto: Arquivo SCS/USP
Ana Maria intermediou a chegada da Coleção HLB ao AG e foi enquanto atuava na triagem da biblioteca da amiga que ela expressou seu desejo de doar seu acervo especializado em arquivologia ao Arquivo Geral – a pesquisadora faleceu seis meses após Heloísa, em setembro de 2023.
Os livros da Coleção HLB já foram todos tombados e têm sido cadastrados no Dedalus (Banco de Dados Bibliográficos da USP), enquanto os livros da Coleção Amac estão sendo tombados e, em breve, também começarão a ser cadastrados no sistema. A consulta será apenas local, uma vez que se trata de coleções fechadas.
Duas histórias de vida
A professora Heloísa Liberalli Bellotto foi bibliotecária, historiadora e pesquisadora no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Foi docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Universidade de Brasília (UnB). Como arquivista, sua formação realizou-se na Espanha, na França e nos Estados Unidos. Criou e implementou, em 1986, o curso de especialização Organização de Arquivos, no IEB, que ocorreu por 22 anos (até 2008), que formou muitos especialistas em arquivologia no Brasil. Um de seus filhos é o músico Tony Bellotto, da banda Titãs. Heloísa faleceu em primeiro de março de 2023. Confira uma entrevista com Heloísa neste link.
Já Ana Maria de Almeida Camargo era historiadora e professora de Metodologia da História no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Foi diretora do Arquivo Público e Histórico de Rio Claro (APHRC) entre 1980 e 1990, e esteve à frente do projeto Brasil: Nunca Mais (1964-1985), no qual foi responsável pelo levantamento da documentação nos arquivos militares e judiciais e da documentação do Arquivo do Departamento de Ordem Política e Social (Deops), depositado no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Atuou junto aos Arquivos de Moçambique durante cerca de 20 anos e contribuiu, de modo relevante, para o fortalecimento do Arquivo Público do Estado e para a implantação do Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo (Saesp). Entre tantas outras ações, foi consultora junto ao arquivo da Fundação Fernando Henrique Cardoso e uma das fundadoras da Associação de Arquivistas de São Paulo, a ARQ-SP, criada em 1998. Ana Maria foi ativa a vida toda e faleceu em 24 de setembro de 2023. Saiba mais sobre o trabalho de Ana Maria clicando aqui.
Por Izabel Leão – Com informações do Arquivo Geral da USP
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