CEPID- CeMEAI: 13 anos em que a matemática encontrou problemas reais e criou novas respostas

Série de depoimentos reúne pesquisadores e marca legado de uma história que continua.

 

 

Ao longo de 13 anos, o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CEPID-CeMEAI) construiu uma trajetória baseada na convergência de produzir matemática de excelência e, ao mesmo tempo, fazer com que esse conhecimento chegasse a problemas concretos da indústria, do poder público e da sociedade.

Criado em 2013 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), com sede no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, o CeMEAI reuniu pesquisadores de diferentes instituições e áreas para desenvolver ciência na fronteira do conhecimento e transformar ferramentas matemáticas, estatísticas e computacionais em soluções aplicáveis.

Agora, uma série de depoimentos recupera parte dessa história por meio das vozes de quem ajudou a construí-la. Pesquisadores e gestores relembram como a matemática foi ganhando novas formas de aplicação e como os resultados produzidos ao longo desses anos ultrapassaram os limites dos laboratórios.

Mais do que uma retrospectiva institucional, a série propõe um olhar sobre o que acontece quando problemas reais encontram pesquisadores dispostos a buscar novas respostas.

 

Quando a matemática encontra problemas reais

legenda Workshop de Soluções Matemáticas para Problemas Industriais realizado pela primeira vez em 2015.

 

Desde os primeiros anos, o CeMEAI estabeleceu como uma de suas principais estratégias aproximar pesquisadores e setor produtivo. Um dos símbolos dessa proposta foi a criação do Workshop de Soluções Matemáticas para Problemas Industriais, realizado pela primeira vez em 2015.

A dinâmica colocava empresas diante de pesquisadores, professores e estudantes para que, durante uma semana de trabalho intensivo, desafios reais fossem transformados em problemas matemáticos e novas possibilidades de solução fossem buscadas coletivamente.

A primeira edição reuniu desafios de organizações como Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, Saab, SENAI CIMATEC e Enalta. O modelo se consolidou ao longo dos anos e se tornou uma das marcas do Centro, aproximando a pesquisa acadêmica de demandas concretas do setor produtivo.

Até 2026, o workshop havia chegado à décima segunda edição, recebido mais de 50 empresas e colocado pesquisadores diante de problemas de organizações como Petrobras, Caixa Econômica Federal, Americanas, Porto Seguro, John Deere, Eletrobras e Embraer.

 

Uma infraestrutura para fazer matemática em grande escala

legenda O Cluster Euler permite trabalhar em uma escala maior com simulações.

 

Essa transformação também exigiu infraestrutura.

Em julho de 2015, o CeMEAI inaugurou o Cluster Euler, supercomputador adquirido com investimento FAPESP de cerca de US$1,859,380,00, que ampliou de forma significativa a capacidade computacional disponível para os pesquisadores e que recebeu upgrade em 2026, agregando mais US$1,321,417,11 em investimentos.

O Euler permite trabalhar em uma escala maior com simulações, modelagem matemática, otimização, ciência de dados e outros problemas que exigem grande capacidade de processamento.

Atualmente, são 839 pesquisadores atendidos. Possui média superior a 60 artigos/ano oriundos de diversas subáreas das grandes áreas: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias, Multidisciplinar. Até o momento são 14 unidades apoiadas na USP e mais 44 instituições externas.

O mais recente upgrade visa corroborar o caráter multidisciplinar do cluster Euler, mantendo a capacidade de atendimento de um workload variado e de uma demanda crescente na área, mas também o habilita a atender as mais modernas necessidades de alta escalabilidade, em especial voltadas para o uso de Inteligência Artificial através de aceleradores baseados em GPU.

Mais do que uma máquina, o cluster representa uma mudança de escala. Para enfrentar problemas cada vez mais complexos, era preciso combinar matemática, algoritmos, dados e capacidade computacional.

Foi essa combinação que ajudou a criar as condições para que o conhecimento produzido no CeMEAI pudesse avançar tanto na fronteira científica quanto em aplicações concretas.

 

A matemática decisiva para enfrentar uma pandemia

legenda – Plataforma “Info Tracker” criada durante a pandemia e que monitorava números da Covid

 

Se a história do CeMEAI mostra uma matemática voltada para problemas concretos, a pandemia de Covid-19 levou essa característica ao limite.

Em 2020, quando o mundo ainda buscava compreender a velocidade de propagação do novo coronavírus e as consequências das diferentes estratégias de enfrentamento, pesquisadores do Centro passaram a trabalhar contra o relógio para produzir modelos, projeções e cenários capazes de apoiar decisões.

Um dos trabalhos de maior repercussão foi o estudo “Vidas Salvas”, que utilizou modelos matemáticos para estimar o impacto do isolamento social na redução de mortes provocadas pela Covid-19. A pesquisa chegou a projetar que, até 19 de maio de 2020, 5.513 vidas poderiam ser salvas no Brasil com a manutenção das medidas de isolamento então analisadas — uma estimativa equivalente a uma vida a cada quatro minutos.

Mas a atuação do CeMEAI durante a pandemia não parou na projeção de cenários. Era preciso também organizar os dados, acompanhar a evolução da doença e transformar números em informação que pudesse orientar decisões.

Foi nesse contexto que surgiu o Info Tracker”, desenvolvido por pesquisadores da USP e da Unesp com apoio do CeMEAI. A plataforma começou monitorando 82 municípios paulistas, que representavam 95% dos óbitos confirmados no Estado, reunindo dados de casos, mortes, internações, recuperações, indicadores epidemiológicos e resultados de modelos matemáticos. A ferramenta permitia comparar municípios e acompanhar a evolução da pandemia em diferentes regiões.

A iniciativa cresceu e ganhou uma dimensão nacional. O InfoTracker passou a utilizar matemática e inteligência artificial para projetar o número de infectados, mortes e recuperados em São Paulo e no Brasil e tornou-se referência para consultas e tomadas de decisão da Rede Nacional de Consórcios Públicos de Municípios, que reunia mais de 2 mil cidades brasileiras.

Foi um dos momentos em que ficou mais evidente, para a sociedade, aquilo que pesquisadores de matemática aplicada já conheciam: uma equação pode ajudar a compreender um fenômeno, projetar cenários e apoiar decisões que afetam diretamente a vida das pessoas.

 

Matemática que se transforma em conhecimento e inovação

Mais de 3.400 pesquisas foram produzidas com apoio do CeMEAI

 

Ao longo de sua trajetória, o CeMEAI produziu conhecimento em diferentes áreas da matemática aplicada e computacional, incluindo otimização e pesquisa operacional, ciência de dados, estatística, inteligência computacional e mecânica dos fluidos computacional.

Foram 3.400 artigos científicos publicados entre 2013 e 2025, além da formação de centenas de mestres, doutores e pós-doutores. No mesmo período, projetos desenvolvidos em parceria com a indústria resultaram em R$ 45 milhões em convênios.

Mas números como esses são apenas uma parte da história.

Porque cada artigo representa uma pergunta. Cada projeto nasce de um desafio. Cada parceria cria uma possibilidade de fazer o conhecimento circular.

Foi assim que a matemática esteve presente na otimização de processos industriais, na análise de grandes volumes de dados, na modelagem de fenômenos físicos, na previsão de cenários, no desenvolvimento de ferramentas computacionais e em problemas relacionados à saúde e às políticas públicas.

Ao mesmo tempo em que respondia a problemas concretos, a pesquisa desenvolvida no Centro também alcançava a fronteira internacional da ciência.

 

Do legado à formação de novas gerações

Em 2026, MBA em Ciências de Dados do CeMEAI chegou à sétima edição

 

A formação de pessoas sempre esteve entre as dimensões mais importantes da trajetória do CeMEAI. Em 2020, o Centro deu mais um passo nessa direção com o início do MBA em Ciências de Dados, iniciativa que ampliou o alcance de sua experiência em matemática aplicada, estatística e computação. Ao aproximar esse conhecimento de profissionais interessados em trabalhar com dados, o curso ajudou a levar para além da universidade competências cada vez mais necessárias à indústria, às organizações e à sociedade.

Mais do que uma nova frente de atuação, o MBA representa uma das formas pelas quais o legado do CeMEAI continua se desdobrando. A formação de profissionais, assim como a pesquisa, a infraestrutura e as parcerias construídas ao longo dos anos, contribui para manter em circulação o conhecimento produzido pelo Centro e para preparar novas pessoas para enfrentar problemas complexos. É nessa continuidade que a história do CeMEAI encontra novas possibilidades de futuro.

 

Nada disso ficará no passado

José Alberto Cuminato durante lançamento do CEPIx CeMEAI

 

Em julho de 2026, chegou ao fim a vigência do CEPID-CeMEAI financiado pela FAPESP. A experiência, porém, está longe de terminar.

Os 13 anos de trabalho construíram competências, redes de colaboração, infraestrutura, conhecimento e, principalmente, uma maneira de fazer ciência que abriu caminho para novos projetos e novas estruturas.

Parte importante do que nasceu no CeMEAI continua se desdobrando em iniciativas que ampliam essa atuação. É o caso de projetos como o IARA –Inteligência Artificial Recriando Ambientes, o CPA-CDII – Centro de Pesquisa Aplicada em Ciência de Dados para a Indústria Inteligente, IntegraSanca, C4AI, ciaGsaúde e a Unidade EMBRAPII ICMC SC, entre tantas outras iniciativas que carregam, de diferentes maneiras, competências, pesquisadores, parcerias e experiências construídas ao longo da trajetória do Centro.

São novos capítulos de uma história que não se encerrou com o fim de um programa de financiamento e segue como CEPIx (Centro de Pesquisa e Inovação Especiais) , um programa da USP criado para garantir a continuidade das atividades de centros que foram inicialmente financiados como CEPIDs (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão).

O legado está na formação de pesquisadores, nas redes científicas construídas, na aproximação com empresas, na infraestrutura criada, nos métodos desenvolvidos e na capacidade de reunir diferentes áreas do conhecimento diante de problemas complexos.

Está também na própria matemática que continua sendo produzida.

Por isso, esta não é uma série sobre algo que acabou. É uma série sobre uma história que continua produzindo frutos.

 

O primeiro capítulo: José Alberto Cuminato

E toda história precisa começar por alguém que ajudou a imaginá-la.

Para abrir esta série de depoimentos, o convidado é José Alberto Cuminato, professor titular do ICMC-USP, pesquisador em Matemática Aplicada e primeiro diretor do CEPID-CeMEAI.

No primeiro episódio, ele revisita os primeiros passos dessa história, fala sobre os desafios de criar um centro com uma proposta inovadora e relembra momentos que ajudaram a definir a identidade do CeMEAI — da aproximação com empresas à consolidação das pesquisas, da formação de pessoas à criação de uma infraestrutura capaz de sustentar novos projetos.

É também uma conversa sobre futuro. Afinal, quem esteve na origem do CeMEAI pode ajudar a compreender melhor tudo aquilo que permaneceu depois dele.

Assista ao primeiro episódio da série com José Alberto Cuminato e descubra como começou essa história.

 

 

Texto: Raquel Vieira
Assessora de Imprensa – Escritório de Grandes Projetos e CEPIx
Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação – USP
divulgaprojetos@icmc.usp.br

 

 

 

VEJA TAMBÉM ...