ICMC e Sociedade Brasileira de Matemática divulgam vencedor do Prêmio Gutierrez 2025

Fabrício Valencia Quintero foi reconhecido por sua tese em geometria e topologia; cerimônia acontece em 2 de outubro em São Carlos

A comissão julgadora da tese de Fabrício Quintero foi composta por professores do IME, da Unicamp, da Universidade Federal do Espírito Santo e da Universidade de Salerno, na Itália (Crédito da imagem: arquivo pessoal)

O pesquisador colômbiano Fabrício Valencia Quintero lembra que estava jantando com a esposa, que é peruana, quando recebeu a notificação por e-mail de que sua tese seria agraciada com o Prêmio Carlos Gutierrez de Teses 2025. Concedida pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, em parceria com a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), a distinção reconhece e celebra pesquisas de excelência em matemática desenvolvidas no Brasil.

A princípio, Fabrício desconfiou e pensou que se tratava de um daqueles comunicados de revistas científicas predatórias. Mas, ao confirmar a veracidade da mensagem, a surpresa deu lugar à alegria, ainda maior pelo fato de a premiação homenagear o professor Carlos Teobaldo Gutierrez Vidalon, matemático peruano que fez carreira no Brasil. Para o casal, o detalhe deu à conquista um significado especial e simbólico.

“Somos estrangeiros aqui no Brasil e, por isso, esse reconhecimento tem um valor especial. A matemática no Brasil é muito forte na América Latina, e sermos premiados nesse contexto é motivo de grande orgulho. Ainda mais pelo prêmio levar o nome de um pesquisador nascido no Peru, assim como minha esposa. Isso nos deixou ainda mais felizes, porque cria uma ligação afetiva com um país que conhecemos bem e pelo qual temos muito carinho”, conta Quintero.

Intitulada Teoria de Morse em grupóides de Lie, a tese foi desenvolvida no Instituto de Matemática e Estatística da USP (IME), sob orientação do professor Cristián Ortiz Gonzalez. O trabalho se destaca pela originalidade e pela contribuição ao avanço científico em uma área que, segundo Fabrício, ainda é relativamente recente no Brasil: o estudo de espaços geométricos com singularidades a partir de ferramentas clássicas da topologia diferencial. A ideia para a tese partiu do orientador, que atua na área de estudo de grupóides de Lie e espaços singulares.

“O que eu fiz na minha pesquisa foi pegar uma teoria clássica, a Teoria de Morse,  e adaptá-la para estudar espaços muito mais complicados, que têm quebras e singularidades. É como obter novas ferramentas geométricas e topológicas para enxergar melhor esses objetos difíceis de analisar. Isso abre caminho não só para avançar na própria matemática, mas também para aplicações na física, onde esses espaços aparecem com frequência”, explica o pesquisador.

Da Colômbia ao IME – Natural de uma pequena cidade próxima a Medellín, Fabrício decidiu pela matemática durante a graduação na Colômbia, após se encantar pelas primeiras disciplinas de geometria. A vinda ao Brasil foi motivada pela reputação internacional do IME e pelas oportunidades de financiamento à pesquisa, viabilizadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Eu já conhecia meu orientador, que esteve algumas vezes na Colômbia. Construímos juntos o projeto de doutorado, e assim cheguei a São Paulo em 2020, no início da pandemia”, relembra.

Apesar das dificuldades iniciais com o ensino remoto e a adaptação cultural, Fabrício conta que encontrou acolhimento no ambiente acadêmico brasileiro. No processo, conheceu sua esposa Maylin Maquera, doutoranda em farmacologia na USP, que ele considera o maior suporte ao longo dos quatro anos de pesquisa. “Teria ficado doido se ela não me aconselhasse, me escutasse, se não me ajudasse a me encaminhar melhor para não ser consumido pelo estresse que às vezes é gerado no ambiente acadêmico” , relata.

Reconhecimento e futuro – Para Fabrício, o prêmio traz visibilidade a uma linha de pesquisa ainda em consolidação no país. “Este reconhecimento representa uma valorização significativa dos esforços que a comunidade científica dedicada ao estudo da geometria de Poisson e dos grupóides de Lie vem realizando ao longo dos últimos anos” ”, avalia. Atualmente, ele é bolsista de pós-doutorado no IME, também com apoio da FAPESP, e planeja realizar um estágio de pesquisa na Universidade de Münster, na Alemanha.

Apesar das perspectivas internacionais, o matemático e sua esposa desejam permanecer no Brasil. “Aqui encontramos um sistema acadêmico sólido, com possibilidades reais de seguir na carreira científica. Além disso, foi o lugar onde começamos a nossa família”, afirma.

A premiação – A cerimônia de entrega do Prêmio Carlos Gutierrez de Teses acontecerá em 2 de outubro de 2025, no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, no ICMC, em São Carlos. Além de Fabrício, que receberá um certificado e prêmio em dinheiro no valor de R$ 3,1 mil, o evento também homenageará Manoel Zanoelo Jarra, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), contemplado com menção honrosa por sua tese Matróides com coeficientes e geometria F1.

Fabrício e a esposa Maylin, que também é pesquisadora, pretendem permanecer no Brasil, onde se conheceram e encontraram boas perspectivas de crescimento acadêmico (Crédito da imagem: arquivo pessoal)

Texto: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica

Mais informações
Confira a íntegra da tese vencedora: ReP USP – Detalhe do registro: Morse theory on Lie groupoids
Conheça mais sobre o Prêmio Gutierrez: icmc.usp.br/pos-graduacao/ppgmat/premio-gutierrez
Acesse a tese que foi menção honrosa: pure.rug.nl/ws/portalfiles/portal/987821372/Complete_thesis.pdf

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