Iniciativas de extensão da USP impulsionam transformações sociais

Ações em várias áreas do conhecimento são desenvolvidas com as comunidades e evidenciam o impacto direto da Universidade em políticas públicas, reforçando a importância desse tipo de interação como missão acadêmica

A cerimônia de entrega do Prêmio USP de Impacto Social 2025 aconteceu na Sala do Conselho Universitário em dezembro, com a participação da pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, Marli Quadros Leite, do pró-reitor adjunto, Hussam El Dine Zaher, e da coordenadora do Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico, Fátima Nunes – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A capacidade da universidade pública de atuar de forma relevante na melhoria das condições de vida da população foi o tema central da cerimônia de entrega do Prêmio USP de Impacto Social 2025. Realizado na sala do Conselho Universitário no último dia 4 de dezembro, o evento reuniu representantes acadêmicos para reconhecer ações de extensão que, ao longo de 2024, estabeleceram vínculos concretos com comunidades e organizações externas.

Promovida pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU), em parceria com o Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico (Egida), a premiação valorizou atividades alinhadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Mais do que um reconhecimento acadêmico, o prêmio evidenciou como o conhecimento produzido no campus retorna à sociedade em forma de serviços essenciais, cidadania e bem-estar.

O objetivo da iniciativa é identificar e registrar práticas que criam mecanismos de diálogo entre saberes acadêmicos e comunitários. Os projetos avaliados atuaram em frentes como saúde, educação, meio ambiente e redução de desigualdades. Para a classificação, foram considerados indicadores como abrangência territorial, número de pessoas atendidas e, principalmente, as evidências de mudanças provocadas nas comunidades. As atividades classificadas em primeiro lugar receberam aporte financeiro para a continuidade das ações.

“O que vemos aqui é a concretização da responsabilidade social da universidade pública. Nossa missão não se encerra na produção do conhecimento, mas se completa quando ele chega à ponta, transformando realidades e promovendo cidadania”, destacou a pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, Marli Quadros Leite. “Esta premiação serve para tirar da invisibilidade trabalhos extraordinários, mostrando que a USP está atenta e sensível às urgências da sociedade.”

A mensuração desses resultados foi um ponto-chave para a realização do prêmio. Para a coordenadora do Egida, Fátima Nunes, o reconhecimento institucional precisa vir acompanhado de indicadores claros. “A gestão universitária moderna exige dados concretos sobre como nossas ações repercutem fora dos muros dos campi. Hoje os principais indicadores internacionais avaliam as instituições pelo seu impacto social sob a ótica dos ODS. O prêmio nasce dessa necessidade estratégica de mapear e mensurar essas iniciativas, permitindo que a USP demonstre de forma consistente o seu papel como agente transformador”, explicou.

Confira, a seguir, alguns exemplos de projetos contemplados:

Prevenção e economia: o exemplo de Ribeirão Preto

Projeto Saúde 50+ USP já atendeu centenas de pessoas em Ribeirão Preto, promovendo qualidade de vida e redução de doenças, impactando, também, os custos com saúde pública – Foto: Arquivo pessoal

Entre as iniciativas reconhecidas na premiação, está o projeto Saúde 50+ USP, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP). O programa ilustra como a extensão universitária atua na ponta, oferecendo soluções para desafios de saúde pública, como o envelhecimento populacional e o sedentarismo.

Com 12 anos de existência, o projeto oferece aulas de educação física gratuitas e presenciais para pessoas a partir de 50 anos, além de avaliações de saúde física e mental. Segundo o coordenador do projeto, Carlos Roberto Bueno Júnior, cerca de 73% dos brasileiros nessa faixa etária não praticam atividade física suficiente, o que agrava o quadro de doenças crônicas.

Carlos Roberto Bueno Junior – Foto: Cecilia Bastos/USP Imagens

“Programas de prevenção são a tendência mundial e são excepcionais inclusive em termos financeiros. Segundo dados da ONU, a cada real investido em atividade física, os governos economizam R$ 3,2 em gastos com saúde. É mais barato prevenir do que tratar”, explica Bueno Júnior, ressaltando que entre 75% e 90% das doenças crônicas poderiam ser evitadas com mudanças no estilo de vida.

Para os participantes, o projeto representa a diferença entre a doença e a autonomia. Dildecir Aparecida Alves Lima relata que chegou ao programa com um quadro complexo de dores crônicas, hipertensão e pré-diabetes. “O quanto nós nos exercitamos, nos dias que estamos juntos, evita que aumentemos o número de remédios e a necessidade de consultas e hospitalizações. O projeto agrega extremamente à comunidade porque é um cuidado preventivo”, afirma Dildecir, que hoje mantém a pressão controlada e eliminou as dores.

A lógica de que o acolhimento na Universidade desafoga o sistema de saúde é reforçada por Dulce Gonçalves Barbieri, de 67 anos, participante há oito anos. Diabética e hipertensa, ela mantém as comorbidades sob controle graças à rotina de exercícios.

“Quanto mais a gente acolhe o idoso para que ele tenha atividades e convívio, de menos vagas nos asilos e de menos internações nos hospitais vamos precisar. É a manutenção do corpo em função das dificuldades que aparecem com a idade”, avalia Dulce.

Além dos benefícios fisiológicos, o projeto ataca outro fator de risco comum nesta etapa da vida: o isolamento social. Carlos Guimarães Rodrigues, de 73 anos, destaca que a longevidade precisa vir acompanhada de qualidade. “A ginástica nos dá anos de vida saudável, isso é comprovado. Mas o segundo aspecto fundamental é a convivência. Estar ativo e interagindo representa uma longevidade com melhores condições”, pontua.

 

Efeito multiplicador: o aprendizado que salva vidas

Mais de 18 mil crianças e adolescentes de escolas públicas já foram treinados e replicaram os conhecimentos em suas comunidades, fazendo a diferença em eventos de engasgo, paradas cardíacas e outras emergências – Foto: Arquivo pessoal

Outro projeto que alcançou o reconhecimento na premiação, na categoria Educação de Qualidade, foi o Kids Save Lives Brasil, sediado na Faculdade de Medicina (FM). Inspirada em uma iniciativa norte-americana, a ação foca no treinamento de leigos para o atendimento imediato em situações críticas, como parada cardíaca, engasgo total, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e afogamento.

Naomi Kondo Nakagawa – Foto: Larissa Navarro

Desde o seu início, em 2018, a iniciativa já capacitou mais de 18 mil pessoas, com direcionamento especial a alunos e educadores de escolas públicas. De acordo com a coordenadora do projeto, Naomi Kondo Nakagawa, o acesso a esse conhecimento é uma questão de cidadania. “Entendemos que é um direito do cidadão ter acesso a esse tipo de informação e treinamento, e também um dever da universidade pública levar isso até a população, ajudando a salvar vidas”, afirma a docente.

Um dos pilares do sucesso do projeto é o efeito multiplicador. Relatos colhidos pela equipe revelam casos de salvamentos realizados não apenas por participantes diretos, mas por pessoas que foram treinadas por ex-alunos do projeto. Entre os exemplos reais, destacam-se uma diretora de escola que reverteu uma parada cardíaca de uma aluna e uma jovem que, ao identificar um infarto no pai, realizou os primeiros socorros de forma crucial para evitar sequelas permanentes.

“As características sociais do povo brasileiro ajudam muito na efetividade das ações, pois existe uma vontade muito grande de ajudar o próximo e não há barreiras culturais quanto ao toque no corpo de outra pessoa em momentos de socorro”, explica Nakagawa. Ela ressalta que o treinamento utiliza manequins de simulação, mas também aposta em modelos de baixíssimo custo, feitos com materiais comuns, para que a prática possa ser replicada em qualquer ambiente doméstico ou escolar.

Para a coordenadora, o reconhecimento institucional da USP fortalece a defesa de que a educação em saúde seja integrada ao currículo escolar brasileiro, a exemplo do que ocorre em países europeus. “A educação em saúde proporciona uma condição verdadeiramente cidadã, desenvolvendo empatia, cooperação e proatividade”, conclui a professora, que já levou as ações da FM para além de São Paulo, alcançando cidades como Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e Porto de Galinhas.

A relevância dessas ações é ratificada por educadores que vivenciam o projeto no cotidiano das escolas públicas. Para a professora Benedita, o contato com a FM abriu horizontes para os alunos, que posteriormente atuaram como agentes de disseminação em suas comunidades. “Tivemos a oportunidade de aprender as técnicas com a equipe da USP e levamos nossos alunos até a faculdade, o que foi a descoberta de um grande universo para eles. Depois, esses estudantes voltaram para a escola e multiplicaram as ações para colegas e familiares em um dia especial. Foi um ganho maravilhoso e um conhecimento que jamais será esquecido por eles”, relata a educadora.

A visão é compartilhada pela professora Érika, que destaca a importância do treinamento imediato enquanto se aguarda o socorro especializado. “O projeto é extremamente rico porque pode salvar muitas vidas no intervalo em que se espera o resgate. Na minha escola o objetivo é multiplicar essas informações para outros professores e crianças, pois sabemos que esse preparo faz toda a diferença na vida das pessoas”, avalia.

 

Ciência no palco: a ludicidade como ferramenta de ensino

Projeto utiliza o impacto visual da química para despertar o interesse de jovens e democratizar o acesso ao conhecimento produzido no Instituto de Química – Foto: Instagram Química em Ação

Com quase 40 anos de estrada, o Química em Ação (Q&A), do Instituto de Química (IQ), que realiza apresentações divertidas e interativas em escolas públicas, eventos e espaços públicos, consolidou-se como o primeiro grupo de teatro de divulgação científica do Brasil. A iniciativa busca preencher uma lacuna crítica na educação básica: segundo dados do Censo Escolar, apenas 49,7% das escolas de ensino médio no Estado possuem laboratórios de ciências, índice que despenca para 10,7% nos anos iniciais do ensino fundamental.

Fabio Rodrigues – Foto: Arquivo Pessoal

Para o coordenador do projeto, Fabio Rodrigues, o grupo atua justamente onde a infraestrutura escolar falha, utilizando o palco para levar a ciência na prática. “Muitas pessoas têm a ideia de que a química é um monstro de sete cabeças e o grupo surge para mostrar que ela é linda. O ponto principal é a experimentação e os atores principais devem ser os reagentes químicos e os experimentos”, explica Rodrigues, ressaltando que o objetivo é despertar o interesse por carreiras científicas em alunos que, muitas vezes, nunca viram uma reação química acontecer ao vivo.

O impacto do projeto estende-se também aos estudantes da USP, que encontram no grupo um laboratório de formação docente e humana. A estudante de licenciatura em Química, Liana Resende, de 21 anos, destaca como a dinâmica teatral aprimora a prática em sala de aula. “A gente aprende a explicar, a contornar perguntas mirabolantes e a adaptar as apresentações para diferentes contextos e realidades de escolas públicas e técnicas. O Q&A é vivência, estudo e aprendizado”, avalia.

Essa evolução na complexidade das produções é acompanhada de perto por membros como João Lopes, que integra o grupo desde 2019. Ele recorda que o projeto saltou de apenas dez membros para mais de 40 integrantes, o que permitiu o desenvolvimento simultâneo de espetáculos inéditos, como O Pequeno Hidrogeninho“, uma releitura científica do clássico de Saint-Exupéry, e Mãe Natureza: Planeta em (Re)Ação, focado em sustentabilidade. “Essa pluralidade do grupo faz com que seja possível ter novas ideias e conexões. Em 2025, enfrentamos o desafio inédito de trabalhar duas peças ao mesmo tempo, incluindo o resgate de espetáculos clássicos do repertório, o que exige uma dedicação coletiva que fortalece nossa formação”, conclui o estudante.

 

Confira a relação das atividades contempladas na edição de 2025:

Texto: Michel Sitnik
Arte: Equipe Artes USP
Por Jornal da USP

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